terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Grande Arca do Menino Vinícius



Não sei se por distração ou se por acerto, devido ao tempo corrido não permitir mais antigos costumes divertidos, como ver um bom filme ou ouvir uma boa música (jogar uma canção no aparelho de som e fazer mil coisas paralelas não conta), acabei por deixar ao conhecimento da SuperFilha apenas as canções ditas "infantis", produzidas especialmente para as crianças. Assim, nada da boa influência de Beethoven ou Mozart, Gerswhin ou Billie Holliday, Caetano Veloso ou Pixinguinha dos meus discos favoritos: isso fica para “mais tarde”: agora, em casa ou no carro, dominam os Patatis Patatás, as Palavras Cantadas, as Galinhas Pintadinhas, os Cocoricós...

Mas nada entrou na vida dela por acaso: acho que já deu pra perceber que, se não sou do tipo intervencionista, também passo longe do "deixar o filho solto"! Logo, cada coisa hoje curtida pela pequena foi vista ou ouvida antes pelo Papai aqui e devidamente aprovada: sempre prezei por qualidade e acredito que nem tudo com cara de "infantil" deve, realmente, ser consumido por crianças – vide os antigos fenômenos Xuxa (que quis se redimir com sua linha "para baixinhos", mas era tarde: outra galinha dominaria o mercado...) e Molecada, que não me deixam mentir, com suas tortas infantilidades...

Nem tudo, porém, é mero modismo de ocasião: fuçando bastante na internet e nas lojas de departamentos (o setor de livros/CDs/DVDs ainda é o meu favorito), acabei por descobrir, e passar a comprar para a Filha, DVDs com clássicos infantis de outrora. E se eu ainda não a introduzi no mundo dos antigos Disquinhos, com aquelas historinhas maravilhosas que tanto marcaram minha infância (falta de costume dela de ouvir historinhas sem o acompanhamento visual), ao menos ela já considera o velho Toquinho como "um dos seus", graças a trabalhos como o adorável Mundo da Criança, onde lindos desenhos animados são "narrados" por pérolas como Aquarela, A Casa, O Pato e O Caderno, e como o relançamento de A Casa de Brinquedo, especial global da década de 80 com grandes canções como Bicicleta, O Robô, O Avião, O Trem (e sua favorita Super-Heróis), agora com desenhinhos tosquinhos e "desanimados" a servir de “imagem narrativa” para a garotada – e que minha menininha tanto adora (e, o que é melhor: não causa enjoos na Mamãe, especialmente nesta fase gravídica, onde qualquer sonzinho afetado dos atuais desenhos e joguinhos já a deixa cansada)!

E apesar de o Mestre Vinícius de Moraes, cujo centenário de nascimento se comemora neste mês de outubro, figurar como parceiro em várias dessas composições, a Filha não menciona seu nome: curiosamente, resta estampado nas capas citadas somente o Toquinho, único conhecido atualmente da pequenina... Mas isso vem mudando desde que a Tia Ligiota deu de presente à minha garotinha, por ocasião do seu aniversário de 3 aninhos, o disco A Arca de Noé vol. 2, com clássicos como O Peru, O Leão, A Cachorrinha – que, se ela ainda não associa diretamente ao "Poeta e Diplomata", ao menos já tem ciência da existência da obra infantil mais diretamente relacionada ao grande Poetinha!

Inconteste que Toquinho seja um grande músico, tendo contribuído sobremaneira no trabalho A Arca de Noé – especialmente no volume 2, onde o Mestre já se encontrava debilitado e à beira da morte, em 1980 –, com seus arranjos sobre os poemas já existentes de Vinícius (que normalmente os escrevia “de farra" para seus filhos, quando pequenos: um superpai à sua maneira). Mas é também inegável que muito do que aprendeu na sua grande carreira se deva ao talento inigualável de Vinícius, que, com sua vasta experiência como poeta e compositor nos mais diferentes gêneros (Bossa Nova, Samba, Valsa), injetou um gás inacreditável na parceria com aquele jovem instrumentista a gerar uma maravilhosamente vasta obra, sendo igualmente memoráveis seus trabalhos voltados para os pequenos, com seus poemas infantis inesquecíveis (O Vento, O Relógio, Valsa para Uma Menininha)...

E como uma obra-prima não tem prazo de validade, servindo, da mesma forma, a inúmeras gerações e encantando até hoje as crianças – e, o que é melhor, sem chatear os adultos em volta – simplesmente por serem excelentes, assim se deu com A Casa de Brinquedo (Toquinho/Mutinho), Os Saltimbancos (Chico Buarque) e, especialmente, com A Arca de Noé (Vinícius/Toquinho/Paulo Soledade), mesmo com uma ou outra expressão mais "ultrapassada" que mereça explicação para a meninada de hoje (como no caso de "amigo urso", de O Ursinho, coisa bem antiga que significa gente falsa ou traiçoeira). Não por acaso, minha garotinha adora todos esses!

Por isso é que, mesmo comemorando o recente relançamento da obra infantil de Vinícius de Moraes, coisa sempre louvável, uma vez que o Poetinha para sempre merece ser lembrado e celebrado, discordei totalmente da ideia de "atualização" do infantil daquele poeta, orquestrada pelo produtor do novo disco, Dé Palmeira (ao lado de Adriana Calcanhoto – a tal da "Adriana Patimpim", sua "personagem para crianças"): "A Suzana de Moraes [filha do compositor] achava que as crianças de hoje não se identificavam com a versão antiga e queria dar nova roupagem para as músicas”...

Fica a dúvida: por que mexer no que já é perfeito?! Novos arranjos, novos ritmos, novos "jeitos de cantar" para os "pobrezinhos" de hoje, que não vão gostar do "antigo" ou mesmo “se adaptar”? Pois a SuperFilha adora do jeito que está e canta bem todas as canções destes grandes mestres de outrora! Logo, por que chamar Seu Jorge, Péricles, Zeca Pagodinho, Mart’nália, Chitãozinho & Xororó e Ivete Sangalo, dentre outros que jamais tiveram maior proximidade com a gurizada, se já tínhamos interpretações magistrais de Elba Ramalho, As Frenéticas, Fagner e o próprio Toquinho, só para citar alguns exemplos, que, mesmo sem maiores apelos infantis em suas obras até aquela época, entregaram interpretações definitivas que fazem parte do imaginário de gerações inteiras que cresceram com aquelas versões? Isto, pra mim, é um mistério...
 
“Num mundo tão careta, mesquinho e chato como o que estamos vivendo, precisamos da loucura, da maluquice e do jeito caótico de Vinicius para equilibrar a nossa existência” e “a arca de Noé mostra o quanto a vida pode ser mais divertida”, afirmou recentemente o produtor da nova empreitada. Nisso eu concordo plenamente: Vinícius de Moraes é daqueles raros artistas geniais que sempre se reinventavam (coisa bastante em falta nestes tempos de mesmices e modismos culturais) – e assim, foi de poeta existencialista a compositor popular; de um dos pais da Bossa Nova a pai dos afro-sambas; de jornalista e dramaturgo a autor infantil, sendo daqueles que se aventuraram tão intensamente na vida que acabou servindo de exemplo para além das suas obras. Obra esta que se completa com um lado divertidamente infantil, sem as cansativas afetações de muita coisa feita para as crianças de hoje em dia... Uma obra atemporal, imperdível para qualquer garotinho ainda hoje aprendendo a gostar de boa Música: sem dúvida, uma excelente forma de começar neste terreno! Mas, por favor: nos discos originais, que não há necessidade de se refazer algo perfeito? Afinal, o menino Vinícius não envelhece jamais...

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