domingo, 22 de setembro de 2013

Meninas Malvadas...


A Super-Filha é uma doce e adorável pessoa. E não é por ser minha filha, não: normalmente ela conquista de cara (carinha linda!), sem esforço algum, seja com seu magnetismo natural, sem mesmo precisar falar com o interlocutor (amigo ou familiar dos pais), seja quando ela se põe a "exibir" suas graças encantadoras. E assim, para além da sua beleza morena, sua simpatia cativa a todos em volta: dos amiguinhos do condomínio (juntamente às suas mães) aos coleguinhas do colégio (juntamente às professoras, coordenadoras, auxiliares...) - que lhe gritam um caloroso "bom dia" nem bem ela adentra a sala de aula, ainda que às vezes dominada pelo pouco humor do início do dia...

Mas e quanto àqueles que não a conhecem? Normalmente, o charme peculiar domina da mesma forma e, rapidamente, ela faz novos amiguinhos no 'playground' da pizzaria e arranca sorrisos de cumplicidade dos pais ainda desconhecidos ao redor. Infelizmente, a vida muitas vezes expõe sua face mais feia e até mesmo a mais amada das criaturas pode sofrer o amargo gosto da rejeição... Certo, eu aceito que tal tipo de lição faça parte da vida, mas... Precisava ser tão cedo com a minha filhinha? Ela chorou duas vezes, numa única noite...

Na última sexta, arriscando uma ida a um restaurante após meses sem um bom programa de fim de semana, tudo parecia bem escolhido: ali serviam um bom peixe (embora bem caro), o aconchegante local não estava cheio e as crianças presentes corriam num pequeno 'playground' dentro do próprio salão das mesas - ou seja, dos nossos lugares poderíamos acompanhar os pequerruchos sem maiores esforços! Tudo ótimo, ela imediatamente passou a correr e brincar com as crianças presentes, repetindo tudo o que algumas garotinhas mais velhas faziam (está nessa fase agora), que com ela rapidamente mostraram afinidade, até que... Chegaram as "princesinhas"...

Duas menininhas com carinhas enjoadas, arrumadinhas de princesas e que já pareciam ser conhecidas das presentes (os pais se juntaram a outros numa mesa) adentraram o recinto e "tocaram o terror", ao começarem a fazer algo deplorável: não só passaram a liderar o grupinho anterior a sair de perto quando minha garotinha se aproximava - primeiro choro sentido do meu amorzinho... - como também passaram a barrar a passagem da Super-Filha por um dos brinquedos! Com esta gota d'água, a Mamãe, que até então só consolava nossa filha - Não chora, meu amor, elas não são suas amigas... -, resolveu intervir:

- Ei, vocês não podem fazer isso!
- É que aqui é o nosso clubinho... - retrucou uma das abusadinhas, no meio do "castelinho" de plástico amarelo, que dava acesso ao escorregador.
- Não, não é: aqui é parte do brinquedo, que é pra todas as crianças do restaurante! E podem fazer o clubinho isolado de vocês em outro lugar, para que qualquer criança possa passar por aqui e escorregar!

O discurso da minha esposa fez efeito: os projetos de arrogância mirim foram saindo aos poucos do meio do seu castelo de princesas do mal e procuraram outro canto menos concorrido. Mas isso não impediu que a minha pobre garotinha caísse no choro pela segunda vez... Aquilo me doeu tão fundo, da mesma forma que à Mamãe: nossa filha chorava pela dor de sentir-se rejeitada! E por quem? Por meninas quase da sua mesma faixa etária, mas que já traziam consigo ranços de uma criação arrogante, mimada e segregacionista... Culpa de quem? Não sei ao certo, mas posso dizer que não vi nenhum dos "pais" do lado de lá vindo amenizar os excessos das suas crias ou mesmo dar uma força, na tradicional política de boa vizinhança "deixem a garotinha brincar com vocês"... Nada: em seu universo fechado de sua longa mesa farta de individualismos, não vi nenhum falar algo para seus monstrinhos nem mesmo quando estes se arriscavam com proezas mais audaciosas, como subir pelo telhado de uma casinha e avançar por sobre as escadas do recinto - até avisei, nesta hora, dos riscos que as meninas corriam para o garçom, mas este logo deu de ombros e seguiu com seu trabalho humilde, como que a pensar: Eu que vou falar alguma coisa para esses riquinhos?

Logo pude perceber um universo triste em meu redor: além da escancarada mágoa pelas lágrimas da filha, incomodei-me bastante com as pobres moças negras que pajeavam (algumas vezes maltratadas pelas próprias crianças que cuidavam) aquelas garotinhas de comportamento detestável: sim, em pleno século XXI ainda há as "mucamas" que aguentam os desmandos das meninas brancas (como estamos no Brasil, nem tão brancas assim, mas "bem-nascidas") enquanto as poderosas "sinhás" sentam-se confortavelmente em suas conversas ruidosas de luxos e vaidades "diferenciados"... Pais participando de um incidente no parquinho?! Microcósmico demais! O barato era mostrar as lindas fotos da última viagem pelo luxuoso 'tablet' recém-adquirido nos EUA! Enquanto isso, as "negrinhas" nada faziam e nada falavam, porque sem poder algum, e seguiam a acompanhar suas "patroinhas" no que estas exigissem...

Exagero a mais ou a menos na minha narração de Papai extremamente afetado com a pequena dor da Filha, o certo é que só se pode lamentar um evento como este recortado do cotidiano: estão sendo (mal)criadas hoje crianças que se tornarão os adolescentes e adultos segregacionistas dos clubinhos isolados e preconceituosos de amanhã, a vociferar 'bullyings' contra outros que, por qualquer razão, não lhe forem considerados "iguais" ou "dignos" de entrarem em seu grupinho... E o choro sentido da minha garotinha em meus braços - que só se acalmou quando outra menininha chegou ao 'play' do restaurante e que, pelo visto, sofreria igual isolacionismo - me lembrava o quanto a humanidade ainda é estúpida, e o quanto minha garotinha, de coração puro e de sorrisinho simpático para com todos, ainda iria chorar...

 
Imagem promocional do filme Meninas Malvadas, que tão bem aborda este tema no universo adolescente das escolas norte-americanas.

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