sexta-feira, 1 de março de 2013

E a Bisa se foi...


Quero chorar 
Não tenho lágrimas
Que me rolem nas faces
Pra me socorrer

Se eu chorasse
Talvez desabafasse
O que sinto no peito
E não posso dizer

Só porque não sei chorar
Eu vivo triste a sofrer
Estou certo que o riso
Não tem nenhum valor
A lágrima sentida
É o retrato de uma dor
O destino assim quis
De mim te separar
Eu quero chorar não posso
Vivo a implorar

Quero chorar 
Não tenho lágrimas
Não tenho lágrimas...

Cantei este clássico do samba com minha querida avó, na casa onde mora com minha tia, em meio às galhardias da SuperFilha e com o testemunho feliz da Mamãe, uns 2 anos atrás - tudo isso um dia antes do acidente que mudaria o resto da sua vida: após uma queda, fraturou o fêmur (ou o fêmur se teria partido e ocasionou a queda?) e nunca mais se recuperou... Assim como se deu com meu avô, seus últimos anos se deram sobre uma cama - recuperação óssea lenta; primeiramente se sentava na poltrona e na cadeira de rodas e se alimentava razoavelmente; depois, cansada e com outras dores mais aguçadas, só cama e entrega...

Ainda me lembro de quando, no 4.º dia de vida da minha menininha, ela veio ao meu apartamento especialmente para conhecer a nova bisneta. Algum tempo, depois retribuí-lhe a visita e levei meu bebezinho ao seu encontro e, posteriormente, mesmo alegando não ter mais condições para estar num evento como aquele, participou do aniversário de um aninho da feliz bisnetinha - encontros que renderam lindas fotos que, até hoje, fazem minha pequena apontar: Olha a Bisa...

Nunca havia cantado com minha avó - a ligação musical sempre foi mais forte com meu avô. Com ela, a coisa foi sempre de conversas afetuosas, conselhos e algumas "broncas"... Por isso, ficou tão marcado aquele dia em que, sorridentes com o improviso, cantarolamos aquele inesquecível samba, naquele dia inesquecível...

Na semana passada, quando ela estava só, num quarto da U.T.I., bastante debilitada, com máscara de nebulização atada à face e alimentada por uma sonda, não cantamos... Sequer conseguimos conversar... Sentimo-nos pelos olhos, nos poucos instantes em que ela os abriu, e pelo fraco sorriso de despedida, com alguns doídos balbucios que não podiam esconder que aquele era nosso último encontro...

Logicamente, a Filha não estava comigo, assim como não me acompanhou ao enterro da Bisa, dois dias depois... Doeu muito e ainda está doendo: aquela linda e culta velhinha gostava muito da minha filha, a quem chamava de "bonequinha"... Agora, só restam fotos e belas histórias para contar, no futuro, para minha garotinha, que segue inocente sobre os sofridos mistérios entre a vida e a morte - Filha, a Bisa se foi: não houve tempo para vocês serem grandes amigas, mas você sempre ouvirá muita coisa desta grande amiga do Papai...

Quero chorar, mas não tenho lágrimas pra me socorrer...

Estava indo fazer compras quando me ligaram com a esperada, porém muito triste notícia, na manhã do último sábado: parei o carro, fiquei parado por alguns minutos e, quase imediatamente, lembrei-me daquele nosso dueto improvisado de alguns anos atrás... Com o peito apertado (O destino assim quis de mim te separar), faltavam-me lágrimas como na canção... Mas, por alguma razão, cantei-lhe outra música igualmente linda, um samba também das antigas, do Mestre Vinícius, com que embalo minha menininha desde os primeiros meses de vida... Minha última homenagem, agora sem testemunhas, a uma rosa que se foi - uma última canção para minha eterna amiga Marieta Guilhon Ribeiro Rosa:

Rosa pra se ver, 
Pra se admirar. 
Rosa pra crescer,
Rosa pra brotar.
Rosa pra viver,
Rosa pra se amar.
Rosa pra colher
E despetalar. 

Rosa pra dormir,
Rosa pra acordar.
Rosa pra sorrir,
Rosa pra chorar.
Rosa pra partir,
Rosa pra ficar. 

E se ter mais uma rosa-mulher. 
É primavera.
É a rosa em botão.
Ai, quem me dera
Uma rosa no coração. 



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