quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Feiras



Sábado, 28 de novembro de 2015...

Quando o Papai aqui estava na quinta série, todos na turma fomos tomados de surpresa com uma didática até então desconhecida para nós, pobres alunos de 10 para 11 anos de idade: teríamos que escolher um projeto com o professor de Ciências, desenvolvê-lo em equipe e apresentá-lo, ao longo de um dia inteiro, para os colegas e inúmeros outros desconhecidos que visitassem a primeira Feira de Ciências da nossa escola - sim, nos moldes daquelas feitas escolares nos EUA sempre mostradas nos filmes, onde os melhores trabalhos costumam até ganhar uma medalha pelo desempenho (sendo que essa história de medalha só seria copiada por aqui tempos depois, no terceiro ano do ensino médio, mas como premiação nos vestibulares simulados). No entanto, enquanto por lá, a meninada é acostumada desde cedo a essa realidade, para nós tudo seria completamente novo, abrupto e, consequentemente, assustador!

De qualquer forma, como líder da equipe, praticamente escolhi sozinho a experiência, pelo meu grupo de "meninas bonitas" (eu estava lá só por causa da minha então "Musa"...): uma garrafa, um funil, algodões, cal, água e "a prova de que existe gás carbônico no ar" (sempre terminávamos nossas apresentações-experimento com esta poderosa "frase científica"). No final, depois de muito suarmos nossas surradas camisetinhas especialmente pintadas para o evento (com os devidos "EQUI-alguma coisa e um desenhinho bonitinho a estampar o que se apresentava), ganhamos um dez (bem, acho que todos ganharam...) e interessados elogios de alguns visitantes: graças a Deus, deu tudo certo! Bom, nem tudo, na verdade: com o intenso stress de dois turnos quase ininterruptos como líder de equipe (logo, eu tinha mais turnos de 1 hora do que as beldades do resto do grupo), o tempo inteiro gastando a garganta a explicar o experimento a quem viesse e morrendo de calor naquela nossa escola pequena e abafada, acabei adoecendo... E não só eu, como qualquer outra criança mais empenhada em seus trabalhos naquele dia exageradamente estafante, passou maus bocados! Um abuso, com certeza, desrespeitando os limites infantis em prol de uma "inovação didática" e dos holofotes da imprensa local para o "melhor colégio" de então - aquele que tinha até a "inovadora feira de ciências"...

O tempo passou e, mais de 25 anos depois, eis que já faz três anos que a Mamãe e eu matriculamos a SuperFilha no mesmo colégio, agora totalmente renovado e bem estruturado numa sede de fazer inveja a muitas instituições de ensino - ele ocupa todo um imenso quarteirão num bairro nobre da Cidade, bem diferente do aperreio da minha época de aluno (onde ocupávamos uma área toda irregular e que aproveitava casas e prédios antigos conjugados no amocambado Centro). E, no sábado retrasado, participamos da sua terceira incursão na Feira do Conhecimento, espécie de "versão moderna e melhorada" das minhas antigas feiras e adaptada para os alunos mais miúdos - sendo que, neste ano, a apresentação do seu projeto seria algo emocionadamente diferente (tanto é que até a Vovó-Dinha se fez presente para aplaudir na primeira fila!): a declamação de vários poemas de autores célebres, como Manoel Bandeira e Cecília Meireles (que a filhona recitou, ao lado de mais dois coleguinhas, com o delicado Leilão de Jardim), e a reprodução do quadro O Pescador, de Tarsila do Amaral, numa releitura coletiva das próprias crianças por meio de materiais recicláveis, foi, no mínimo, extremamente emocionante para o Papai aqui, sempre tão ligado às artes em geral! E, o que é melhor, sem o nervosismo estressante daqueles tempos idos: todo o evento - que consistia também em visitações a outras salas e projetos diversos -, foi muito bem organizado em estandes temáticos e durou menos que o turno de uma manhã! Uma pena que os SuoperGêmeos não tenham podido ir (eles costumam dormir entre as 9 e as 11 h).

A maior mudança que vi no colégio, porém, foi a melhoria pedagógica no desenvolvimento de projetos científicos ou culturais junto às crianças: mesmo com alguns senões que vez por outra critico aqui (como uma mais que equivocada apostila, com erros de Português!), há tempos que a escola realiza um belo trabalho ao longo de todo o ano letivo, com variadas vertentes sendo trabalhadas em paralelo, não mais realizando evento algum em cima da hora ou trabalhando especificamente um projeto somente para uma  uma feira. Assim, além das atividades específicas, a Filha sabia de cor todos os outros poemas daquele recital, juntamente a várias canções clássicas da MPB (sendo que ela já conhecia João e Maria e A Banda, de Chico, desde os nossos embalos para ela dormir aos 3 anos), teve excelentes noções sobre a arte de Tarsila e o movimento modernista, sem esquecer a ida ao museu paleontológico para conhecer, na prática, as muitas informações sobre dinossauros e fósseis que recebeu ainda no primeiro semestre. Tudo coroado com a apresentação do espetáculo Frozen - Uma Aventura Congelante, onde minha super-heroinazinha viveu lindamente uma das azuis "aves do verão" (a qualidade do balé e as coreografias acabaram inferiores em relação aos anos anteriores, mas a beleza geral só aumentou) e, nesta última quinta, as duas turmas do Infantil 2 marcaram o penúltimo dia letivo do ano ao participarem de uma breve cantata em Inglês, com I wish you a merry Christmas, My Shadow e Days of the week - e, com a pronúncia quase impecável da pequena, ficou difícil conter a emoção...

Agora, diante das férias que começam hoje, resta a imensa vontade - muitas vezes impossível de se concretizar na prática - de aperfeiçoar em casa os tantos aprendizados vivenciados no colégio... Isso sem falar no quase desespero de procurar tornar especial cada um desses vindouros "dias sem aula" - mesmo aqueles mais entediantes onde nada mais resta além de ficar deitada em frente a uma TV por várias horas... Mas só em ver uma nova postura professoral não só desta como de outras escolas locais, com respeito à criança e com vontade concreta diante do estudante, resta um gostinho bom de dever bem cumprido pela filhona em relação à sua Educação (pagamos tão caro, exigimos o mínimo...) e, por fim, paira um consolo em relação aos atropelos non sense dos tempos idos, ocasião em que até um shopping (!) teve suas áreas abertas ocupadas para as apresentações de alguns anos daquelas feiras de ciências da minha infância e adolescência... Afinal, tudo evolui - e que seja a escola, pública ou particular, com sua gigantesca responsabilidade social, a primeira a ter essa ciência: respeito, consideração com as crianças e jovens e conhecimento são coisas que não se acham na feira!

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